Ficamos tão obstinados a ser donos da verdade que por vezes ignoramos que ela é de todos.
Cada um tem suas verdades, gostemos ou não. Isso é intrínseco ao ser humano, nasce, cresce e se apropria das suas verdades, defendendo-as ferrenhamente, mesmo que sejam frutos da subjetividade, mas são suas e não cabe a outros buscar desfazê-las.
Certa feita Dom Barulho firmava a mão no controle do arado e quando parou a junta de bois, para uma folga merecida, pediu água.
Como bom mandalete da estância, de pronto alcancei o garrafão de cerâmica e a caneca de louça que estavam descansando a sombra de uma laranjeira.
Ele me olhou, falou que o sol temperava a pele e que para ser homem de bem tem que criar calos nas mãos.
Eu retrucava em pensamento dizendo a mim que ele estava errado, pois tem muitos homens de bem que não fazem calos nas mãos.
Aquilo me incomodou por longos anos, até que eu me desse conta do que ele falava, tentando expressar que os homens de bem devem trabalhar.
Para meu avô o trabalho sempre foi braçal, então o calo das mãos era fruto desse trabalho.
Demorei mas aprendi que ele queria me passar a lição de que o trabalho dignifica o ser, dá sentido ao caminhar, mas o que vejo de mais importante ainda é que o olhar pode ser lançado sobre a mesma perspectiva, mas descrito de forma distinta pelos olhos que as veem.
Sempre recordo que falávamos da liberdade, essa mesma liberdade que foi conquistada a sangue e suor, deve ser respeitada.
Os primitivos eram livres e foram caçados para serem escravizados e até mortos por não quererem fazer as coisas que os invasores determinavam, os negros foram escravizados para servirem de mão de obra dos senhores donos de terras e a gente se escraviza vendendo a saúde por riquezas que jamais irão reparar a saúde que perdermos.
Nos condicionamos na nossa verdade sem abrir os horizontes mentais. Somos por vezes escravos de nossas ideias.
A liberdade está em tudo o que nos rodeia, mesmo que não percebamos, liberdade é tudo mas deve ter medida.
Assim como a forma de nos expressarmos. Quando me expresso posso dizer que isso ou aquilo sem achar que somente o que eu digo é o correto. Difícil mesmo é ouvir o que as pessoas têm a dizer, discordar mas respeitar, isso está cada dia mais danoso ao convívio, principalmente nos tempos de exposição digital.
Grande parte da sociedade entende que, se eu não concordo, sou contra, não me dão chance de divergir. Acabamos com a imparcialidade ou com a liberdade de expressão, tudo é motivo para extremismos e o extremismo nos joga em um abismo.
Divergir e discutir de forma inteligente, nos faz crescer, nos faz pensar, nos faz desenvolver enquanto seres inteligentes.
Desenvolver o intelecto é ascender nos degraus da vida, iluminando a alma e o espírito.
Porque eu gosto tanto de dar ideia mas tenho dificuldade de aceitar as ideias alheias? Já se pararam reticentes neste questionamento?
Dom Barulho me fez calos nas mãos, sem que eu nunca pegasse no arado, apenas com suas proposições grotescas, fez a mente funcionar para crescer.
Quando divergíamos, não encerrávamos a conversa com ele usando da idade para me tolher.
Buscávamos sempre a luz e a voz da razão, seja na história, na matemática ou na filosofia, ele me dava liberdade de argumentar e eu a mesma liberdade de receber ensinamentos de um avô.
Aprisionar a liberdade é como encarcerar a mente em um baú escuro, distante da luz e da convivência sã de pessoas com credo, cor e pensamentos distintos, mas que sempre trazem algum brilho pra vida.
Deixem livre a liberdade e colham seus frutos de inteligência...
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