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Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

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Escadaria

A literatura diagonal

Escadaria
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A Escadaria se impõe como uma fissura bela e incurável no Centro da cidade. Cada um dos seus degraus é a costura de um curativo no morro enfermo que já foi todo verde e, há tempos, recua como se temesse o contato nocivo com o concreto. O curioso é que a fenda em dobradura modelada pela Escadaria não perturba tanto pelo possível mal causado à mata vizinha, impressiona mais pela relação íntima que estabelece com o Rio, na imersão que ela permite, na impressão clara de que o último degrau, vencidos todos os outros, deve desembocar na primeira onda do Guaíba (Sim, há ondas no Guaíba. Ondas diminutas).

Há um erro de cálculo que o sonho retifica. O último degrau ainda é distante uns bons metros das primeiras águas. O sonho derrama a Escadaria na imensidão aquática que ela observa. A mais bela vista da cidade, a Beira desnuda, o Rio feito um corredor móvel a separar a cidade da Capital, a Ilha um ponto de repouso na vista que caminha em direção a zona sul de Porto Alegre.

A Escadaria possui duas populações, é habitada de duas formas distintas. Há o público transitório, seja o Admirador (que a imponência da altura empresta a seu olhar), seja o Apressado (que atalha um trajeto ordinário). Essa população é mais numerosa, porém, anônima, não escreve em primeira pessoa do singular, tampouco em terceira pessoa. Derrama versos sempre conjugados por nós. Nós desatados e quase sem vida, despretensiosos e perecíveis.

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O outro habitante, o verdadeiro habitante, ocupa por completo os trechos contíguos à Escadaria, construiu sua moradia na literatura diagonal que ela sugere – série de casarios a consagrarem e cortejarem a costura numerosa de seus vincos. A imagem que me invade é a de um condomínio poético. Basta observar que não há fundos ou frente das casas, há fundos e frente da Escadaria. Uma neutralidade inaugurada na negação dos opostos, a vivência suprema de um espelho que reflete mais a alma do que o corpo.

A Escadaria dobra o próprio corpo até a Aladim Pinto como um tapete diagonal. Um túnel do tempo cujo teto é o céu e os extremos são o Sítio Histórico, nosso território original, e a Beira, terreno mais afeito à juventude. É verdade que os automóveis barulhentos da Beira hoje falam mais alto do que todos os emblemas de nossa história. Mas a Escadaria estará sempre lá, a nos permitir o acesso, a dobrar-se em tapete cronológico, a nos lembrar o caminho mais adequado para revisitar nossa memória.

 

FONTE/CRÉDITOS: João Luis Carvalho
Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

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