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Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

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Identidade

As camadas sensíveis da democracia

Identidade
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Acordo e não sei meu nome e corro pela casa até achar a porta pra rua que abro num empurrão e, ao mesmo tempo em que o trinco de ferro anuncia a ruptura num estalo, o clarão do dia me alcança e minhas pernas bambeiam, eu fico ali meio tonto de tanta luz, bem no vão da porta, como quem ainda não decidiu se deve mesmo encarar o mundo ou regressar ao conforto do quarto, acontece que o quarto de há pouco não é meu, um quarto é sempre uma fortaleza própria, uma extensão de identidade, e quem não sabe o próprio nome não tem identidade alguma, não pertence a lugar qualquer, é cria bastarda da própria vida.

Me resta descer as escadas correndo e chegar à rua deserta de luz e vento, olhar pros dois lados, lá pro alto primeiro, pronde dá na Escadaria, ali pro outro depois, onde chego na avenida, e eu escolho os lados da avenida e recomeço a correria na direção do rio, a água turva lá adiante subindo e descendo subindo e descendo subindo e descendo em meus olhos cada vez mais próximos do rio, os morros do outro lado, inalcançáveis, antes a ilha, território isolado, território descolado, território ausente do corpo da cidade, do corpo a quem pertence, Eu não quero ser uma ilha!, Eu não quero ser uma ilha!, Eu não quero ser uma ilha!, eu preciso falar três vezes que não quero ser uma ilha para que meus pulmões entendam a necessidade da pressa, para que as pernas e todo o restante do corpo não desistam de rumar até o prédio mais próximo, o prédio grande das leis, a Câmara, é aqui a Câmara, é aqui que me faço parte da cidade?, é aqui que é a casa de todos?, aqui então pode ser também a minha casa, aqui posso encontrar meu próprio batismo, subo as escadas vazias e atravesso as portas todas, das salas todas, e todas elas, escadas, portas e salas estão vazias e silenciosas, eu grito Onde é a minha casa?, Qual é o meu nome?, olho pela janela do plenário e ainda resta, lá no meio do rio, a ilha, como que me convidando para compartilhar seu distanciamento irreparável.

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Eu não aceito o convite e volto às ruas à procura de alguém que me responda qualquer de minhas perguntas, de alguém que me faça ao menos alguma pergunta, porque daí nascerá uma chance de responder, e talvez dessa resposta eu encontre alguma certeza, já agora estou subindo a lomba na direção do Cipreste, da habitação original, dos primeiros campos ocupados, foi aqui que a cidade nasceu, e nem aqui eu encontro um nome que me pertença, Guaíba, eu digo, Guaíba, repito, Guaíba, eu grito, e já depois de descer a lomba e deixar o Cipreste pra trás e repetir mais uma dezena de vezes Guaíba em todos os tons que me são possíveis, a voz começa a falhar, na mistura de cansaço e vazio que a palavra Guaíba vai tomando, vai minguando, vai ficando longe, vai me dizendo que não, que Guaíba não é o teu nome, que tu deve é correr, e eu corro na contramão da reta vazia de carros pessoas animais, alongo os passos como posso, porque sei que ainda me resta um só lugar para me encontrar, que se chegar tão logo e a tempo, talvez esteja lá escrito meu nome com todas as letras, que talvez haja uma nomenclatura que verbalizada edifique o som de minha própria existência, eu grito Eu quero existir!, Eu quero existir!, Eu quero existir!, e vejo ao longe a entrada do cemitério como um convite para um nome silencioso, e preciso renegar mais esse convite, pois minha existência não poderia silenciar sem fundar um próprio som.

Alcanço finalmente, já com os olhos borrados de suor, a entrada do prédio, não há ninguém por aqui, não há funcionários, não há secretários, não há prefeitos, há apenas um rumor de ausência, uma tranquilidade constrangida, encontro logo as escadas que levam ao gabinete principal, chego até a sala e lá no meio há uma caixa em cuja pele de papelão está escrito Urna: encontre seu verdadeiro nome aqui, eu respiro fundo do cansaço, dos gritos, da correria, da pressa, do medo mesmo de jamais me encontrar de fato, a imagem da lomba, da ilha, dos morros, da Câmara, do Cipreste, a imagem de Guaíba inteira percorre meus olhos como uma lembrança prestes a ser apagada, abro a caixa e asseguro, com todas as letras de meu nome, o nascimento de minha verdadeira identidade.

Comentários:
Guilherme Lessa Bica

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Guilherme Lessa Bica

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