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Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

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No mesmo barco

A miséria humana

No mesmo barco
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Há dias em que o cansaço bate com mais força. E até mesmo as cenas mais mesquinhas, ordinárias e miseráveis soam como o poema mais tenro e sincero do mundo. Difícil explicar o que acontece, apenas que uma sensação de fragilidade se obriga a crescer no admirar da fragilidade do outro. Não há regras ou métodos, pelo contrário, há uma comunhão invisível de misérias humanas em trânsito, em desfile pelas ruas e antessalas e salas e quartos da cidade, ou ao menos um dar-se conta dessa comunhão.
 
Nesses dias, o olhar mais racional e impiedoso escorre pelo corpo até tombar derrotado, e não basta que cruzemos, por exemplo, com o grande executivo e toda sua aristocracia de modos vagarosos, polidos, europeus, não basta que ouçamos suas frases demoradas e definitivas, tampouco a fala monocórdia e autoteísta de sempre, nesses dias ele deixa de ser o deus de si e dos outros, e então cruzamos com ele em uma pizzaria ou restaurante da cidade, observamos o olhar comedido sobre as outras mesas, medindo a própria solidão diante de uma família numerosa que comemora o setuagésimo aniversário de sua matriarca, acontece que o som do parabéns que chega da mesa da família vai morrendo aos poucos, mesmo que as mãos insistam em palmas e o subir e descer dos lábios sigam sugerindo o muitas felicidades, muitos anos de vida, e aí a velha canção é substituída num primeiro momento por todas as ofensas, pertinentes ou não, daqueles que não gostam do grande executivo, é substituída logo depois pelos aplausos todos, reverências todas, prêmios, agradecimentos, cortesias e puxassaquismos, e todos eles, falsos ou verdadeiros, sinceros ou oportunistas, rodeiam o grande executivo na ciranda solitária de quem assiste à setuagenária apagar todas as velinhas do bolo e as palmas voltarem a soar ruidosas, distantes de sua mesa, de onde está acompanhado somente por cadeiras vazias.     

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São dias em que as solidões alargam-se do corpo, cobrem-no como uma casca afetiva, e então nos passam pelos olhos essas pessoas que insistem em tomar o aparelho celular como um espelho, registrando em série o mesmo retrato, como um álbum interminável do mesmo instante de vida, o que será que buscam?, há uma razão para fazê-lo?, jamais uma explicação razoável se impõe, e, de fato, em dias como este não interessam respostas razoáveis, mas apenas que a cena sugere alguém que pode duvidar da própria beleza, alguém que pode enviar traços seus para um amigo ou amante que há muito não encontra, alguém que investiga, que seja, a poesia obscura do próprio corpo, e todas essas possibilidades, nesses dias, mesmo que sejam apenas possibilidades, já sublimam o que há de ridículo em estender o braço e registrar a si mesmo num retrato.
 
Em dias como este, até mesmo o autoflagelo moral e as cobranças sobre si dão um descanso, e então podemos chegar até a beira e buscar na água cristalina do rio que existe apenas no pensamento, todas as mesquinharias que já praticamos, as invejas de pessoas mais belas ou talentosas do que nós, as pequenas infrações morais que denunciam minúsculas e muitas vezes inofensivas falhas de caráter, e admitir que a maioria delas é muito mais responsável por nossa identidade e falam muito mais sobre nós do que boa parte das qualidades que os olhos dos outros nos reconhecem. Pois há mesmo dias em que o cansaço bate com mais força, nos joga pro canto do ringue, amparados apenas por frágeis e elásticas cordas, e nos soca os ouvidos em sussurros aterradores de lucidez, anunciando a implacável, trágica e consoladora condição de estarmos todos no mesmo barco.
Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

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