Tardezinha gelada de inverno, mate na mão, fogo no centro do galpão e um avô que mira longe, perdendo de vista o concreto, viajando no abstrato.
O neto, quieto e de olhar fixo, admira a silhueta do velho avô, pensando: como será ao chegar nessa idade?
A fumaça por vezes, revoa no interior do galpão e dá ares de lenda misto a cena cotidiana. O fogo de acácia e canela do mato, estala ao absorver a umidade da madeira, quebrando com frequência o silêncio grande.
Leia também: Breve diálogo de Paixão Cortes e Dom Barulho
Dom Barulho para enxergar melhor, põe seus óculos. O mate com infusão de tranquilidade, quando levado a boca, embaça a visão, mas ele segue firme mateando até que aquilo se dissipe, e ele volte a ter a vista normalizada.
Nesses invernos do sul é assim, tudo vira fumaça. A água do mate, o bafo da boca, a umidade dos campos, o lombo suado dos cavalos, tudo se mistura com o ar e faz um neto brincar de soprar o nada para ver a fumaça que sai da boca, se espalhar pelo galpão.
Ele muito sábio, nota que o observo. Tira os óculos e me oferece para experimentar, mas adverte que eu tenha cuidado, e fala para que eu tente enxergar com aquelas lentes.
Tudo se turva, amplia, fica disforme e num emaranhado de coisas, não consigo distinguir nada em meu olhar. Ele brinca e dá uma baforada que atinge ambas as lentes. Pronto, agora além de turvo, embaça a visão e não vejo nada. Brinco que estou sem visão e de mãos erguidas a frente, digo ao avô que me carregue, pois sem ele não saberei sair do galpão.
Ele me afaga o cabelo com carinho, saca os óculos da minha face, senta e serve o mate. “Com que lentes queres olhar ao futuro meu neto?”
A simplicidade da pergunta trazia uma profundidade que me acertou no meio do peito e no topo da cabeça.
Eu queria aprender mais que responder, e devolvi um: “Como assim vô?”
Sem os óculos enxergaste o de sempre, o teu normal, com os óculos te mudou a visão, desforme e sem constância, com a baforada perdesse as referências e parecia esta sem visão alguma. Na vida é assim, podemos enxergar a vida claramente se tivermos as referências, se nos libertarmos de preconceitos, se valorizarmos as pessoas e não as posses. Valores sólidos, educação para o respeito mútuo, cultura para educar a mente e poder ensinar quem queira aprender, afeto para conquistar amigos e fraternidade para não ter mais do que precise e nem esquecer quem tem menos. Quando turvamos as lentes, com desafeto, mentiras, desvios de conduta, o olhar dos outros se turva sobre nós. Quando nossa mente se enche de mentiras, valoriza mais o ter que o ser, alimenta ódio, preconceitos e dissemina maldade, é aquela baforada final nas lentes, passamos a atuar como cegos, cegos do mundo de humanidade e passamos a atuar no mundo da vaidade, beirando a insanidade.
Portanto meu neto, escolher as lentes que queres ver o futuro te será importante para desenhares o mundo em que queres viver.
Leia também: Vô Barulho e as mulheres gaúchas
Aprendas, porém, que assim como os óculos e as lentes, cada um escolhe o seu. Nessa caminhada da construção do futuro, terás desenganos, cometerás erros, mas se teus valores forem sólidos e verdadeiros, nada pode embaçar teu óculos, nem o frio das mente maquiavélicas, nem o bafo azedo dos que espalham a maldade.
Esse meu avô me ensinava de forma tão simples as coisas mais complexas do mundo. E eu sigo aprendendo.
E tu já parou pra pensar que óculos vais ver o futuro?
Comentários: