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Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

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Processo de hibernação - cuidado com M'boitatá

"...ele já não precisa parecer eficiente e dedicado para o rebanho."

Processo de hibernação - cuidado com M'boitatá
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Deixo o Vô Barulho descansar para falar de algo que sempre preocupa, que ele nem gostava de falar porque suas convicções o atordoavam. Sabemos da preocupação, mas pouco se resolve, as facetas mutantes da política democrática dessa cidade, célula minúscula de um gigante adormecido em berço esplêndido sofre como sofre todo o resto.

Aprendi com o passar do tempo, tomando consciência de como são as coisas, que há um processo de hibernação tradicional nessa cidade, que dura cerca de três anos cada ciclo.

Os buracos se proliferam como bicho em ferida de ovelha, as filas nos postos de saúde crescem como esperança de pobre. O hospital se ensaia mas não vem, só com a iniciativa privada, Aliás as coisas só acontecem nessa terra com força e domínio da fibra de celulose. Os parques e praças tomam ar de abandono, folhas e lixo no chão, telas de cerca danificadas, bancos quebrados.

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Ainda escutei casos em que moradores foram a prefeitura protocolar um pedido de melhoria para sua rua, que ainda é de saibro vermelho, levanta poeira, chove vira barro, enche de buracos, mas aí descobre que na papelada de alguma secretaria, consta que já foi asfaltado e recapado várias vezes.

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Bueno, daí se passam os famosos três anos, chega enfim o quarto ano, com ele vem o m´boitatá maleva, que sai da hibernação, com fogo pelas ventas, um rugido feroz e uma fome enorme para devorar votos...

As ruas se transformam em canteiros de obra, as calçadas em trincheiras, onde os soldados mergulhados na batalha são menos dos que os capitães e sargentos que orientam do lado de fora.

Uma numerosa frota de máquinas aparece, como se fossem estrelar um filme dos “transformers”, removendo a terra, carregando caçambas, entupindo tudo de pedra, areia e asfalto.

Prédios e calcadas são limpas, meios-fios pintados, árvores podadas, tudo isso depois que o famigerado m´boitatá saiu de sua caverna. E o m´boitatá se fantasia de cordeiro, ronda a cidade faminto, devorando um após o outro e se prepara para a espera matreira do ato final.

Todo o rebanho se reúne, geralmente em filas, discutem o indiscutível com o conhecimento de uma pedra e a profundidade de uma colher de chá, a fila anda, os dedos tocam os leitores, a música eletrônica anuncia que a escolha foi feita.

Ainda ciente que a escolha é feita pelos cordeiros, os mesmos teimam em reclamar do pastor pelos maus tratos com o rebanho. O pastor, alheio a tudo, senta em sua cadeira de couro, com uma xícara de café bem quentinha e põe os cachorros ovelheiros para pastorearem, pois ele já não precisa parecer eficiente e dedicado para o rebanho.

O m´boitatá percebe que tudo está calmo e ele bem alimentado. Solta o último grito de poder e volta para sua caverna, hibernar por mais três anos.

As máquinas somem, sem o letreiro de “The End” no final da película, as árvores crescem, os buracos reaparecem e a cidade cai novamente no esquecimento de outrora.

Mas dessa vez se as ovelhas berrarem, quero que seu berro acorde o m´boitatá, que feroz e indomável, dará conta de parar com a choradeira incessante...

Quem sabe seguirá hibernando para acordar e fazer tudo outra vez?

Veremos...

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Mário e Tainara

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Mário e Tainara

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