A casa da gente é um pedaço da vida, temos apega, carinho, segurança, aconchego, uma profusão de sentimentos que, as vezes só nos damos conta do valor que representa quando decidimos trocar de lugar.
Pode ser que tenhamos de sair da nossa casa por inúmeros motivos: uma mudança de emprego, uma situação de dificuldade, uma melhora de condição, uma escolha pessoal, nossa, são tantos que não conseguimos enumerar, mas a saída nos faz mergulhar em lembranças, momentos distintos, coisas que vivemos naquele lugar e que levaremos conosco, no registro de memória da vida.
Nossa casa pode ser um lar, um ninho de aconchego e afeto, um porto seguro onde nos sentimos donos do mundo particular, um lugar para dormir e sobreviver, cada casa tem sua conotação, mas a gente já parou para pensar sobre essa significação?
Quando pensamos em “casa”, o que nos traz esse lugar dentro dos nossos pensamentos?
Para cada um de nós um significado! Carregamos conosco um sentido e sonhos, por vezes, ainda que gostamos muito do nosso lar, podemos ter a chance de ter outro e seguir em frente. Ainda que possa nos gerar insegurança, medo, ansiedade, pelo passo dado, a sensação da conquista e da oportunidade de evoluirmos, nos aproxima da satisfação, alegria e renovação. Porém, para isso precisamos dar a mão para coragem e a outra para o medo se for o caso, mas ainda sim, seguir em frente!
Há momentos em nossa vida, que deixamos “o cavalo encilhado passar”, porque não damos espaço para a coragem. Sim, a coragem!! Ela nos move, nos afasta da zona de conforto.
Quantas vezes, já se pegou olhando para teu lar e pensando: ah, mas eu não gosto da cor dessa parede! Aqui precisa de um reparo! E porque, não fazer?! Será que estamos vivendo muito no automático e vamos nos conformando com aquilo que nos gera desconforto?
A casa é o objeto, mas o lar é a conexão afetiva, o ponto de referência da segurança, do aconchego, um rancho enorme e um posto do fundo podem ter valores inversos se o que conecta dependendo de quem vive neles.
Certa feita Dom Barulho contou que era peão de estância, desses de acordar de madrugada e preparar o assado para os companheiros comerem e levarem o restante para a jornada.
Cevava mate olhando as três Marias, ao pé do borralho, a fumaça as vezes invadia a casa, mas ali ele era o homem mais feliz do rancho. Não media a felicidade dos outros, mas não cabia em si de tanta gratidão por ter o seu posto, o seu mundo particular. Os galos acordavam depois de Dom Barulho lavar a erva e as obrigações o fazia importante, pois ele sempre fazia o seu melhor.
Um dia o filho do patrão perguntou porque ele era tão faceiro, se vivia no posto do fundo, era serviçal de boia pra peonada, o que acordava mais cedo e dormia mais tarde, como ele podia ser tão faceiro diante desse cenário?
Dom Barulho retrucou o moço e explicou que a felicidade é de dentro pra fora e não de fora pra dentro. Ele era feliz porque o posto do fundo representava um lar, onde ele dormia com segurança, acordava com energia e mateava com orgulho, não é o que tem na casinha do posto do fundo que vale, mas o que ela e eu trazemos de melhor nesse convívio, a um enlace de carinho e gratidão por minha parte e ela me retribui com o abrigo seguro e o aconchego que preciso, o cusco me traz a parceria e teu pai me dá a condição de me sentir um ser humano abençoado por ter trabalho e onde me encostar no final da lida.
Em seguida convidaram Dom Barulho para ser capataz da estância e ele teve que mudar pro posto do meio, um lugar maior, com um pouco mais de conforto e já não era sua obrigação preparar o assado da peonada.
O filho do patrão voltou a lhe indagar depois de certo tempo, se ele agora era mais feliz no posto do meio, com uma casinha mais agradável.
Dom Barulho trouxe todo o respeito às palavras e novamente explicou para o jovem que a conexão é de dentro pra fora e não o oposto, não é o tamanho nem o luxo que tem, mas o aconchego e a cumplicidade que se cria, de que vale um rancho cheio de prata e ouro se carregamos o peito vazio?
Feito o comentário, o jovem sorriu e deu um abraço em Dom Barulho, sem precisar falar nada, os dois sentiram-se felizes e gratos pelo momento.
Esse Dom Barulho...
“O ranchinho é mais eu nele, que ele em mim
é barro, madeira e capim na sua concepção
coberto de santa fé, um santuário ou fortim
rodeado pelo jasmim perfume do meu rincão”
Mário Terres
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