"Devo escolher esta manhã
entre o mar desnudo e o céu?"*
A escolha entre mar e céu é sempre tarefa espinhosa, Poeta. Ali está o mar, esse que banha parte da areia, esse ser rebelde e pendular que não se prende a costa alguma, esse tanque largo cujas paredes são os continentes. E aí tu chega à beira da praia e vai olhando o mar olhando o mar olhando o mar, nas ondas que vem e vão, olhando mar com os olhos partindo da beira e rumando pro meio, avançando e avançando, feito aquelas câmeras de cinema americano em helicópteros que captam imagens a cruzar os mais diversos cursos hídricos de costa a costa. Mas daí tu não chega à costa outra. O teu olhar cruza o mar, as ondas parecem menores lá do helicóptero, e o teu olhar que cruza o mar chega no
Céu, Poeta. E um céu daqueles sem nuvens, completamente nu, e mesmo completamente nu, eterno e exposto, o céu ainda mantém a promessa de que esconde algo, parecido com aquilo que outro escriba, que não tu, disse que Dormir ao lado de uma mulher é dormir às margens de um abismo**. O céu é um abismo ao contrário, ele que se abisma sobre nós, ele que é o anjo decaído, perfeito, completo. O que resta, Poeta, nesta equação esquisita de ter que escolher ente um e outro, é esperar o final da tarde, o horizonte já em chamas, e naquela quentura laranja de céu e mar, nalgum ponto insondável desse encontro, observar a manifestação do infinito, aquela espécie de aurora boreal dos trópicos.
"E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?"*
Eu sempre enxergo rostos no rochedo. E rostos, Poeta, para nós todos mortais, rostos são carne submetida às intempéries do tempo. A carne áspera da rocha ferida com insistência pelo violento golpe das águas. O mar que fere a carne da rocha, o mar é o tempo.
Eu sempre enxergo rostos no rochedo. E sempre acreditei que entendi, uma crença pretensiosa, eu sei, aquilo que disse o Paul Valéry, sabe o Paul Valéry, Poeta? Brincadeira, claro que sabe, né?!, pois sempre acreditei que entendi aquilo que ele disse sobre certa vez que andava em uma praia deserta e cruzou com uma pedra do tamanho de uma cabeça humana, pedra recém lançada pelo mar à areia, e observou que parte da pedra era muito parecida também com o rosto de um homem, eram dois olhos, era um nariz, eram esses sulcos que tu falou aqui e ali, os sulcos que nos humanizam, e naquele deserto todo, conta o Valéry, ali mesmo ele pensou ou verbalizou, o que sempre causa um desconforto vulgar como quando pensamos algo grandioso e não temos com quem compartilhar imediatamente, ele pensou ou verbalizou o seguinte: o mar levou milhares de anos para esculpir esse rosto nessa pedra. Um artista vale milhares de anos.
O mesmo tempo que envelhece, que cobra a caminhada dos anos, Poeta, o mesmo tempo esculpe com zelo a poesia da existência.
"Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?"*
Se eu tivesse que desenhar a morte, Poeta, meus traços no papel revelariam uma senhora idosa e matreira. A tia ou a avó que melhor cozinha no bairro, que passa a vida a te inserir em orgias gastronômicas que remetem ao céu, mas que em algum momento, como nos clichês de telenovelas das oito, se revela a mais perversa vilã, no pote de algum arroz de leite ou no prato de um pudim envenenado.
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E o tempo, aquele que te prometia ser contado em ponteiros eternos ou nas sombras do sol ou na sucessão das estações, abandona tua mão, te deita no solo e fecha em definitivo os teus olhos aos ponteiros todos prometidos.
A morte, Poeta, a morte é o deitar da ampulheta.
Mas não se preocupe, sei bem que é morto há tempos. Acontece que a poesia é deusa que ressuscita, é guindaste de erguer a mesma ampulheta.
Se eu tivesse, portanto, que desenhar a tua morte, o papel permaneceria no branco inacabado e circular das memórias que talvez desbotem, mas que jamais encontram seu fim.
* Poemas que integram o “Livro das Perguntas”, de Pablo Neruda.
** Trecho do livro “Mulheres”, de Eduardo Galeano.
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