Queridos leitores, quem acompanha o desenvolvimento do tradicionalismo pelo mundo afora tem visto seguidamente o crescimento da arte da dança, da declamação, da música, da trova, da pajada, enfim, o crescimento das manifestações depois da retração forçada pela pandemia.
Tramitamos há muitos anos pelo mundo da dança, conhecemos amigos, formamos essa dupla de escritores no meio da dança tradicional.
Esse meio é maravilhoso, basta que saibamos sorver o melhor que ele oferece, não podemos querer apenas traçar como objetivo a premiação, mas buscar confraternização, fazer amigos, conhecer mais da cultura, enfim, estratificar o melhor que podemos.
Na profusão de danças e dançares, temos vertentes que nos levam para caminhos distintos, mas que comungam dos mesmos conceitos primordiais.
Falamos dos dançantes de entidades que têm como caminhada o ENART (Encontro de Artes e Tradição Gaúcha) com seu estilo e regulamentação própria, outros preferem o FNCG (Festival Nacional da Cultura Gaúcha) ou “Circuito da Vacaria” que também tem sua regulamentação e estilos próprios e ainda, o FEGADAN (Festival Gaúcho de Danças) com o mesmo modo dos demais, vejam estamos trazendo três distintos caminhos que têm o mesmo solo, a mesma base, mas com modos de trilhar totalmente diferente.
O ENART traz projeções folclóricas mais abertas, dando espaço para as criações musi-coreográficas de entradas e saídas baseados em temas que tenham conexão direta com a história do nosso pago, usam um “manual de danças” próprio, baseado no original de J. C. Paixão Cortes e L. C. Barbosa Lessa, mas com modificações efetuadas ao longo do tempo.
Já o FNCG usa as obras dos autores citados anteriormente e ainda abre para outros autores, desde que com comprovação histórica e balizado pelo MTG, valorizando os trabalhos de pesquisa e resgate das nossas danças, não tem abertura para entradas e saídas, valorizando a dança tradicional puramente, buscando também a conotação que traz os pesquisadores primeiros (Paixão e Lessa) que era retratar o homem simples do campo, o gaúcho rupestre a rural, sem pompas nem brilhos, mas a singeleza de valorizar a dança mais que a roupa.
Por fim o FEGADAN, muito similar ao FNCG, porém com restrição de usar apenas embasamento nas obras de Paixão e Lessa, sem abertura para outros autores, isso restringe o universo de danças, mas segue na mesma linha de manter a singeleza e a simplicidade da retratação social no bailar.
Bem, eis aqui o cenário atual do contexto artístico e suas particularidades, diferentes, sim, mas todos com o intuito de manter viva a cultura a gaúcha. Há quem note as pequenas diferenças ou grandes, porém, há de sempre se referenciar o respeito e aproveitar para contemplar o estilo que cada grupo ou entidade tradicionalista adotou como propósito.
O que é diferente para nós, aos olhos daquele que segue o estilo, trata-se de uma bonita arte, realizada com muita dedicação dos seus integrantes e apoiadores. Como pessoas, somos muito diferentes, não é mesmo? E ainda assim, conseguimos referenciar as qualidades do outro. Então, fica aqui nosso convite para um olhar com abertura e curiosidade pelo que pode ser diferente para nós...
Afinal, o objetivo maior nos parece o mesmo, que é o cultivo da cultura gaúcha.
Todos estes eventos trazem consigo suas variações, peculiaridades e pormenores, mas a mesma essência unindo o propósito dos “Bailares” antigos e rebuscados da nossa gente do campo, os homens e mulheres que fizeram esse Rio Grande ainda mais lindo e próspero pelas forças das mãos e suor dos seus rostos.
Se Dom Barulho ainda estivesse aqui e perguntássemos à ele sobre o tema, certamente nos diria:
“Tenho duas mãos que fazem as mesmas coisas, são iguais aparentemente, mas se observarem bem, não são tanto assim, uma é mais calejada, com mais marcas e a outra com sulcos diferentes na carne. Tenho mais destreza numa e menos na outra, mas isso não desvaloriza nem valoriza mais ou menos, se qualquer uma delas me fizer falta, não sei o que fazer. A vida é assim, somos todos diferentes, mas precisamos uns dos outros para desenvolver e crescer, não importa nossas opiniões, basta que nos respeitemos como irmãos!”
Que tal, Dom Barulho não deixa nada sem trazer uma mensagem boa...
“Que o maior presente entre as pessoas, sejam a bondade e o amor fraterno!”
Mário Terres e Tainara Moraga
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