Dom Barulho já ensinou, nem só de cultura formal e literária se faz a formação do conhecimento do indivíduo. Há algo que molda um conhecimento tácito chamado vivência, sólido e profundo, que é capaz de fazer história mesmo sem conhecer a escrita.
Muitos desses campeiros de antanho, são desses que não conhecem a matemática, nem o português, mas escrevem história com precisão geométrica e conhecimento abissal. Não aprenderam em uma hora, nem em um dia, mas em tantos anos que os sulcos da pele representam cada um deles como se o próprio tempo anotasse em suas faces cada um desses sulcos, com uma caneta indelével pra demonstrar esses anos.
São desses que olham o céu e dizem como vai ser a semana que escutam o minuano ou o pampeiro e falam das estiagens ou das cheias, observam os pássaros e buscam as aguadas. Entendem das bicheiras para curá-las, aprendem que brasino geralmente dá laço forte e que pingo enfrenado na lua nova geralmente dá babão. Não, eles não frequentaram bancos escolares, nem tiveram essa oportunidade, mas ensinam os seus filhos e netos que observando a natureza com afinco, ela fala conosco. E as avós, como dona Judith, que conhecem dos doces e das virações, sabem benzer o tempo, curar sapinho, terçol, conhecem das plantas que fornecem chá e curam os males. Elas que cobriam espelhos e guardavam machados em dias de temporais, sabiam das luas para plantar e podar, também entregavam ensinamentos aos netos.
Dom Barulho e Dona Dith eram desses que não sabiam escrever direito, não tiveram oportunidade de frequentar escolas, mas fizeram do campo a sua carreira, da vida seus ensinamentos e prosperaram criando os filhos com dificuldades e os netos com repasse dos ensinamentos. As coisas que aprenderam foram na lida, dia após dia, construindo um banco de dados infindável e consistente, afinal eles eram laboratório, cientista e cobaia do que a natureza, o tempo e a vida tem pra ensinar e sabiamente aproveitavam esses ensinamento para seus afazeres.
Os pingos de Dom Barulho eram bem feitos, os laços eram os mais fortes e a criação, uma das mais rentáveis, poucas perdas e muita carne. A horta da Dona Judith era farta e linda, os seus doces de frutas colhidas por ela própria eram maravilhosos, os pães que suas mãos sovavam, chegavam a dar água na boca mesmo enquanto eram apenas massa crua, de quebra aprendeu a costurar, sozinha e ajudava no orçamento da casa com suas costuras.
Lembro do acolchoadão coberto de retalhos quadrangulares dispostos simetricamente que escondiam em seu interior, cargas de lã cardada, que pesava tanto quanto o sono do avô. As coisas eram simples, mas de um fundamento socrático. A palavra era algo tão sério, que depois de dita e apalavrada, era sinônimo de firmar um contrato.
Nas casas dos avós, uma televisão, um rádio de pilha sempre ligado, fogão a lenha, pilão, máquina de costura, arreios pendurados, horta pra salada diária e alguns marrecos, patos e galinhas pra o final de semana. Simplicidade abundante, conteúdo de vida para mais de um livro, não havia internet, nem celular, aliás nem telefone tinham os avós. Uma coisa eles tinham de sobra: vivência. Vivência de que a vida pode ser simples e sem filosofias baratas adquiridas em algumas horas, porque vivência é algo que o tempo enche na bagagem ao longo de tantos anos, que a caneta do tempo anota nas rugas e sulcos do rosto, cada década de passagem.
Por isso eram tão requisitados os avós, por sua sabedoria de vivência.
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