Repórter Guaibense

Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

Colunas/Geral

Corajosos covardes

"Existe uma falsa coragem que os livros nos entregam..."

Corajosos covardes
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Manhã de julho, uma friaca braba. Amanheceu com uma geada grande, que o tapete verde do pasto ganhou ares de noiva, com um fininho véu branco, como se fosse um tule francês, branco e fosco, deixando o pasto rijo, teso e quebradiço.

A casinha simples em meio ao vasto campo, fumegava uma fumaça cinza, mostrando ao frio que há peleadores, os tições que mantém a casa aquecida.

No pé do fogão, com seu chinelo de couro e as pernas cruzadas, onde o peito do pé direito consegue repousar sobre a batata da perna esquerda, como se entrelaça um látego na encilha.

Leia Também:

Eu que chego sempre depois que o avô desperta, dou bom dia e peço benção ao avô (costume que se perdeu), benção vó e peço licença pra sentar junto daquele velho rude, sem estudo, mas de sabedoria ímpar. Esse é Dom Barulho, sábio do campo, mestre das histórias lúdicas e simples.

Fiz uma pergunta simples, qual a relação entre coragem e covardia. Recebi tanto que, nem sei se consegui guardar todo o ensinamento. Compartilho então.

Notei certa inquietude ao formular a resposta. Serviu o mate (sempre direto da chaleira que repousa eternamente sobre o fogão), me alcançou com cuidado e sorveu toda a ciência do assunto para discorrer calma e lentamente:

“Meu neto, coragem deveria ser confiança em si, aquilo que salta do coração pra mente, buscando a raiz da palavra. Mas também é sustentar bravamente sua posição, independente de ajuizar, mas é como estar no meio dos lunáticos que dizem ser plana essa bolinha chamada terra, e não enveredar para o lado deles, sustentando o que Galileu Galilei fez. É estar de frente pro estouro da tropa e gritar para alinhar o estouro ao invés de correr. Mas existe uma falsa coragem que os livros nos entregam e que, por vezes, não sabemos interpretar. Ai está escondida a covardia fantasiada de bravura.

Nosso estado foi construído por mão corajosas, que defenderam a geografia, para que não fossemos invadidos ou tomados por forças de outrem.

Também vivenciamos atos de covardia que a história nos traz e que a história “esqueceu” de entregar.

Quem nos ensinou a usar o cavalo, que nos serve tanto para o trabalho quanto para o lazer, que foi arma de guerra e servidão para todas as horas, foram os Minuanos e Charruas, que por corajosos covardes acabaram dizimados, ensanguentados na própria terra.

Os famosos Bandeirantes, desbravadores, “corajosos” semeadores de povoados, que abriram caminhos do Brasil central ao sul, escravizavam negros, primitivos, brancos e se não aceitassem a sujeição, matavam. Foram a grande maioria assassinos com a permissão e o soldo da coroa brasileira. Os próprios Pataxós, primitivos do Brasil central escravizavam quem passasse pelo seu território, com a chegada de portugueses ao país, os Pataxós aprenderam a comercializar escravos

Quem sustentou a fronteira mais ao sul desse estado, garantindo a demarcação da divisa com o Uruguai, fundando a cidade de Rio Grande foram os militares, comandados pelo engenheiro militar José da Silva Paes, auxiliado por Cristóvão Pereira de Abreu, alguns soldados portugueses, primitivos habitantes daquelas pradarias, os Charruas e Minuanos tinha também muitos negros fugitivos, com esses formou o Regimento dos Dragões do Rio Grande de São Pedro. Mas lembre-se, a história geralmente é contada por quem tem a vitória, então ela nem sempre é imparcial. Isso é característico do mundo. Estamos falando da coragem mascarada pela crueldade, essa é a covardia.

Leia também: Ser, vencer e extremos

Hoje em dia as armas são outras. Muito covardes se fantasiam de corajosos e usam as mídias para acusarem e jogarem aos cães pessoas que não simpatizam. Hoje em dia não vemos diálogos sadios. Não se pode discordar de nada, se concordamos somos bonzinhos, se discordamos de algo, defendendo nossa posição, somos esquerdistas, sociopatas, intransigentes, enfim, não é permitido discordar, afinal é muito mais fácil fazer revolução com a bunda no sofá hoje em dia. Sou do tempo que podia ter posição contrária ao meu compadre, mas jamais comprometeríamos o respeito.

Enfim meu neto, hoje em dia as heranças dos covardes fantasiados de corajosos seguem habitando a nossa sociedade, mas lembre-se, quem tem coragem de dizer que não, ou de mostrar-se contrário ao teu pensamento, vai te ajudar a crescer se apresentar argumentos plausíveis de discussão, já aquele que só concorda com tudo, carece de fundamentação da própria opinião, ou de coragem para expressá-la. Defenda sempre sua posição”

E mais uma vez tive o privilégio de receber uma carga de ensinamento.

Comentários:
Mário e Tainara

Publicado por:

Mário e Tainara

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também