Entendo que estou ficando velho, envelheço e fico inquieto, me torno chato, resmungo sozinho, lembrando cada vez mais Dom Barulho.
A velhice me traz pensamentos que me deixam ensimesmado refletindo, pareço mais temerário ao Divino e menos apegado a matéria, agradeço muito mais que reclamo e observo muito mais que argumento.
O mundo também tem envelhecido, mas creio que diferente de mim o mundo adoeceu, adoece e padece dia a dia por tantas perdas que nem sei como enumerar, ah mundo antigo, mundo velho, não te entregas.
Só que quem adoece o mundo empobrece a vida, essa raça daninha que vai roendo por todos os cantos esse mundo lindo como ratos, essa raça que despreza as regras da vida e denigre a natureza, essa raça humana que se desumanizou e esqueceu que dinheiro não se come nem se toma como remédio.
Há em minha ignorante constatação uma fome de afeto, esmolamos carinho e dedicação, dos pais, dos pares, dos amigos, somos vagos em nossos argumentos e falhos em nossa afeição. Com essa degradação sofre em fraqueza esse afeto, o apego, e principalmente a educação.
Não!!! Não estou falando dos professores, esses pobres trabalhadores do ensino que sofrem em descaso pelo governo, pela sociedade, pelos pais e por conseguinte pelos alunos. Falo da educação primordial, de berço, a acepção de base moral, de valores e que completa a educação do caráter de um ser. Essa que é responsabilidade primordial da família e seguidamente algumas delas tentam transferir aos professores.
Com essa falta de educação nos deparamos todos os dias, desde os simples atos de não cumprimentar as pessoas, de não estender a mão ao outro até as mais horrendas inescrupulosas façanhas de passar a perna nos outros, fazer-se de zorro manso vestido de cordeiro e passar a bocarra em todo o rebanho, nossa essa velhice me faz prestar atenção em tanta coisa.
Na volta pra casa, eu que moro longe do urbanismo, me regozijo com a paisagem, a passarada e a calmaria, mas até ali a falta de educação dos meus semelhantes me irritam. Olho para as margens das ruas e vejo lixo jogado, seguidamente encontro dois ou três guaipecas abandonados e choro todos os dias ao ver o pobre arroio Passo Fundo morrendo fedorento e escurecido dos maus tratos dessa imundice de raça humana.
Pasmem, a culpa não é do governo, não é do prefeito, não é do vereador, não, a culpa é nossa que não damos educação aos filhos, que não ensinamos que o mundo é organismo vivo e que o campo verde depende da chuva, que pra chover precisamos alimentar os açudes, lagos, lagoas, rios e mares com águas limpas, não com plástico nem com imundice cloacal.
O respeito está em tudo, mas poucos ainda o praticam. Outro dia estava eu em pleno preparo do mate, umas seis e quinze da manhã, mal e mal o sol mostrava as cores e um barulho infernal me aturdia a mente e espantava os passarinhos da jabuticabeira.
Um barulho que vinha perto e sumia ao longe, repetia e ia e vinha incomodando tanto aos que estavam acordados quanto aos que não conseguiam fazê-lo. Era um avião empesteando o ambiente, matando as pragas, o mato, o ciliar, as flores e até a jabuticabeira padece com o agressivo agrotóxico.
Me preocupa muito essa coisa de meio ambiente, mas salta os olhos a falta de educação das pessoas.
Ora paysano, cadê a educação? são seis e pouco da manhã, tem vizinho que trabalhou a noite toda e precisa descansar pra dar o sustento aos seus.
Ninguém me ouve nessa retórica sussurrante, mas o mundo velho já não é mais o mesmo. Dom Barulho que já se foi, ainda bem que vossa excelência não está presenciando tanta depreciação.
Querem separar cor, preferências diversas, credo, políticas, porque esquecem que é só em conjunto que alcançamos o ápice da vida, só em comunidade fraterna podemos aumentar a bondade do mundo.
Envelhece mundo velho e eu envelheço contigo, mas sou teimoso, não mudo, vou seguir os valores que uma mãe amorosa e um pai severo me plantaram na alma, quando eu me for seguirei orando por ti, mundo velho.
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