Quando éramos bem piás, aqueles de jogar bolita, cinco Marias e de correr na rua pulando valo, sempre escutávamos os pais e os avós dando sua contribuição para nossa formação.
Eram outros tempos, afinal já falamos em outras oportunidades, ele (o tempo) é implacável, não para, não esgueia, nem sequer pisca, ele segue sem parar, sem dar trégua e com ele vão acontecendo mudanças que não temos pretensão de julgar, mas de mostrar que elas ocorrem, independentemente de qualquer coisa.
Somos saudosistas, sempre usamos a métrica da comparação, isso era melhor que aquilo que é melhor que o outro e assim viajamos no tempo, saudosista é assim. Um pé no futuro, mas um olho sempre no passado, juntos, mas equidistantes.
Tudo isso para trazer à tona que somos hoje um tanto do que nos moldaram na infância, fomos quase que programados (expressão meramente usada para reforçar conceito) com valores, crenças, lendas, tudo o que nos contaram gravamos, tudo o que faziam, gravamos, tudo o que víamos, gravamos e só na fase adulta começamos a entender o que usar o que descartar, o que guardar e foram se formando os adultos, daquelas crianças que pulavam valo e jogavam cinco Marias.
Ah! a espontaneidade que tínhamos quando criança, falávamos com uma pureza e leveza. Se tínhamos algo a perguntar? Perguntávamos!!! Se estávamos tristes? Chorávamos, por vezes, copiosamente!! E quando estávamos felizes com algo?!! Ah, que alegria, era como uma explosão, parecia que não tinha espaço dentro da gente, tamanho era o sentimento.
Bem, mas aí crescemos!! ... A vida adulta chegou e com ela, as responsabilidades aumentaram, preocupações, problemas, incertezas e etc.
É verdade, mas ainda que tenhamos tudo isso, o que fizemos da nossa criança leve e curiosa pelas coisas da vida? Que é autêntica em demonstrar seus sentimentos?
Importante notarmos para o quanto, talvez, em alguns momentos vamos nos distanciando da leveza e olhando para as situações com olhar mais cinza e novamente se afastando do olhar colorido de uma criança.
Contemplamos aos pequenos, valorizamos e percebemos estas características, porém, não nos permitimos.
Dom Barulho andava pelo campo, a pé, comigo ao seu lado conversando sobre coisas do dia-a-dia que não lembro acertadamente do que se tratava, de repente vislumbramos uma criança, bem mais nova que eu naquele tempo, jogando pedras em um quero-quero, na fantasia de que acertaria o pássaro.
Fiz menção de sair correndo para repreender o piá, mas quando ameacei a corrido aquela mão rude e forte me agarrou de um braço e disse-me:
“Nem tentes estragar a peraltice do inocente. Ele não quer maltratar o bichinho, mas brincar de acertá-lo. O quero-quero não se deixará tocar por uma pedra. A experimentação serve para o aprendizado.
Aquele piá se aperceberá que, por mais que tente e repita, não acertará o pássaro, vai crescer e se dará conta da beleza do bicho, da destreza da ave, da fraqueza do homem e da perfeição da natureza. As crianças são os experimentos dos adultos, tentam, erram, acertam, aprendem e moldam-se ao futuro.
Deixe, nunca tolha a inocência, pois dela brota o amanhã...”
Fica aqui, nosso convite: Não deixe a criança leve e curiosa que há em ti, perder a sua voz interna.
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