Dom Barulho estava calado, com a cara enfiada no mate, os olhos de sanga esbugalhados e o perfil de homem rude, esmaecido.
Na minha meninice, não tinha coragem de interpelar o avô tristonho, pois percebia que a dor era medonha. Assentei quieto, acompanhei o silencio velado e taciturno, com ares de curiosidade misturados ao profundo respeito.
Ele me alcançou um mate e vi... Ele chorava disfarçadamente por fora, mas copiosamente por dentro.
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Sem eu falar uma palavra ele abriu o livro do coração, bem na página da dor profunda e leu, linha por linha.
Me contou que perdera um irmão, desses que tem muitos problemas, mas que é carne de sua carne, sangue de seu sangue.
Ele não se cuidava, tinha que ser cuidado como uma criança, precisava ralhar com ele, para tentar fazê-lo entender que a vida é um carne de muitas prestações, vamos pagando dia a dia até que, se não cuidarmos, os juros serão cobrados. E eles são implacáveis.
Perder um irmão, desabafou ele, é como ter o anjo da guarda tomado de si, irmão é anjo sem asas, que vem para ensinar tantas coisas, que quando se vai, nosso coração se esvai em breu e escuridão. Dói muito, sei que vai passar, mas analisamos a vida, às vezes, só quando a morte nos bate na cara.
Também aflora todo o nosso egoísmo, de querer que dure pra sempre o que sabemos ter fim. Eu acredito meu neto, que o destino já vem traçado, mas que a linha final, somos nós quem escrevemos.
Perplexo, depois de engolir cada gole de mate em seco, acabei por interrogar instintivamente, soltando um “como assim?”
Ele já ia emendando a explicação, eu é quem fui afoito. Calei-me e procurei sorver cada palavra, como o melhor mate de todos.
Seguiu: vamos trilhando o caminho conforme escrito por alguma força divina, que desenha o início e o fim, mas não determina a duração, acredito que vamos construindo isso de acordo com o poder dado à nós que chamamos livre arbítrio, cada escolha pessoal reflete em nós de forma determinante.
O irmão que perdi fez cada uma de suas escolhas eu sei, mas dói arrancar um pedaço. O apego é hereditário, tem sangue do mesmo sangue envolvido. As brigas, eram formas rudes de pedir para que ele ficasse bom e prolongasse a caminhada. Os xingamentos e falas mais grosseiras e fortes, era uma súplica interna gritando de toda a goela: Preciso muito de ti...
Mas as escolhas agem na linha do destino, e podem encolher o final de forma avassaladora.
Quando morre um irmão, morre um filho também. Mãe e pai não se consolam, pois a vida inverte a ação trivial de partir os mais velhos primeiros. Quebra-se a harmonia familiar, enrijece o Pai, esmorece a mãe que por dias secarão como folhas sem água e não poderão falar em nada, para não se ferirem ainda mais.
A lágrima é sal no rosto, a dor lancinante aturde o peito, o irmão se vai e cada vez que olhar pra sua casinha, cada vez que tocar o despertador avisando que é hora do remédio, cada vez que o almoço estiver pronto, vou lembra dele.
A gente sabe, a vida é finita, mas quando morre um irmão, a gente esquece de tudo o que sabe e sofre a dor da ignorância querendo que o pra sempre nunca acabe.
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A dor da perda dói demais pra quem pensa em nunca mais...
Que vá em paz, que seja luz e que possamos lembrar da sua alegria, nunca da sua agonia, que mãe e pai sejam forte e consoláveis.
Adendo:
Esse texto dedico ao meu amigo Júlio Borges: filho, irmão, exímio músico e um amigo fiel. Que as palavras te sirvam de afago e consolo meu irmão amado, que tu sejas o esteio dos teus velhos nesse momento.
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